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OBMEP 2025: Resolução da 2ª Fase Nível 3 — Probabilidade, Lógica e Divisores

OBMEP 2025: Resolução da 2ª Fase Nível 3 — Probabilidade, Lógica e Divisores

A 2ª fase da OBMEP 2025 Nível 3 é destinada a alunos do 3º ano do Ensino Médio. É a prova mais exigente da olimpíada: exige domínio de álgebra, geometria, combinatória e, especialmente, raciocínio demonstrativo. Resposta sem justificativa não pontua.

Este artigo resolve as questões 1, 2, 5 e 6 com seus critérios de correção oficiais, tal como publicados pelo canal Só o mi. Se você quer não apenas acertar, mas ganhar pontos máximos, leia cada critério com atenção.


Estrutura da prova Nível 3

O Nível 3 tem 6 questões discursivas, 3 horas de duração, valendo 20 pontos cada. Os itens têm peso crescente:

  • Item a: 4 pontos (em geral)
  • Item b: 6 pontos
  • Item c: 10 pontos (ou distribuição diferente para itens com 4 partes)

Os temas cobrados em 2025:

QuestãoTema
Q1Tabuleiro 3×20 — padrões e divisibilidade
Q2Encaixe de peças em tabuleiro — argumento de coloração
Q3(Resolução disponível no canal)
Q4(Resolução disponível no canal)
Q5Probabilidade — cartões e sorteio condicional
Q6Teoria dos números — jogo lógico com divisores

Questão 1 — Tabuleiro 3×20: padrões numéricos e divisibilidade

O enunciado:

Um tabuleiro 3×20 é preenchido com os números de 1 a 60. A primeira linha tem os números 1 a 20 (da esquerda para a direita), a segunda tem 21 a 40, e a terceira tem 41 a 60. São mostrados pedaços desse tabuleiro com alguns números ocultos.

Item a — Encontrar x (4 pts)

A propriedade fundamental do tabuleiro: mover uma linha para baixo adiciona 20 ao número, na mesma coluna. Se o número n está na linha 1 e coluna k, então:

  • Linha 2, coluna k = n + 20
  • Linha 3, coluna k = n + 40

O número 17 aparece no pedaço mostrado. Usando sua posição de coluna e o padrão de linhas, determina-se que x = 55.

CritérioPontos
Identificou que cada linha abaixo soma 202
Usou a coluna do 17 para encontrar x = 552

Item b — O divisor comum d (6 pts)

Três números y, z e w aparecem em posições específicas do tabuleiro. A análise das posições revela:

  • z = y + 21
  • w = y + 35

Para encontrar o maior d > 1 que divide os três simultaneamente, usamos que se d | y, d | z, d | w, então d divide as diferenças:

  • z − y = 21 = 3 × 7
  • w − y = 35 = 5 × 7

Portanto, d | MDC(21, 35) = 7. Como 7 é primo e d > 1, temos d = 7.

CritérioPontos
Identificou que z = y + 211
Identificou que w = y + 351
Mostrou por fatoração que d = 74

Item c — Os valores possíveis de y (10 pts)

y está na primeira linha, logo 1 ≤ y ≤ 20. Como d = 7 divide y, y deve ser múltiplo de 7 nesse intervalo:

  • y = 7: z = 28, w = 42 — MDC(7, 28, 42) = 7 ✓
  • y = 14: z = 35, w = 49 — MDC(14, 35, 49) = 7 ✓

y pode ser 7 ou 14.

CritérioPontos
Concluiu que y é múltiplo de 7, com 1 ≤ y ≤ 203
Analisou y = 7 → z = 28, w = 423
Analisou y = 14 → z = 35, w = 493
Concluiu os dois valores possíveis1

Questão 2 — Encaixe de peças: o argumento da coloração

Esta questão envolve um tabuleiro quadriculado que deve ser coberto por peças em formato de L (ou similar) com 5 quadradinhos cada. O enunciado pede:

  • Item a: posicionar peças em uma configuração inicial específica
  • Item b: posicionar peças em outra configuração com raciocínio mais elaborado
  • Item c: provar que uma terceira configuração é impossível

Items a e b — Encaixe direto

Os itens a e b testam a habilidade de encontrar o encaixe correto evitando “quadrados isolados” — casas que ficam sem vizinho e não podem ser cobertas por nenhuma peça.

Critério item aPontos
Posicionou a segunda peça preenchendo o quadrado solto2
Posicionou as peças restantes na única configuração possível2
Critério item bPontos
Posicionou as duas primeiras peças com lógica de quadrados isolados3
Posicionou as peças finais completando corretamente3

Item c — Prova de impossibilidade por coloração (10 pts)

Este é o item mais elegante da prova. O argumento é clássico na combinatória olímpica: colorir o tabuleiro como um xadrez.

Passo 1: Identificar quantas peças são necessárias.

  • O tabuleiro tem 25 quadradinhos. Cada peça cobre 5. Logo, são necessárias 5 peças.

Passo 2: Colorir o tabuleiro alternadamente (preto e branco, como xadrez).

  • Um tabuleiro 5×5 pintado assim tem 13 casas de uma cor e 12 de outra.

Passo 3: Analisar quantas casas de cada cor cada peça cobre.

  • Qualquer peça em L com 5 quadradinhos, em qualquer orientação ou inversão, cobre sempre 3 casas de uma cor e 2 da outra.

Passo 4: A contradição.

  • 5 peças cobrindo 3 de uma cor cada = 5 × 3 = 15 de uma cor e 5 × 2 = 10 da outra. Ou na orientação inversa, 10 e 15.
  • Mas o tabuleiro tem 13 e 12. Nenhuma combinação de 5 peças ímpar chega a 13 e 12 simultaneamente.
  • Portanto, é impossível cobrir o tabuleiro.
CritérioPontos
Identificou que são necessárias 5 peças (25/5)2
Aplicou o argumento de coloração e contou 13 e 123
Analisou a peça: cobre sempre 3 de uma cor e 2 de outra3
Concluiu a impossibilidade2

O argumento de coloração é uma das ferramentas mais importantes da OBMEP. Ele transforma um problema de encaixe em um problema aritmético simples.


Questão 5 — Probabilidade com cartões: três cenários

Esta é uma das questões mais sofisticadas de probabilidade já cobradas no Nível 3. O enunciado:

Há 11 cartões numerados (alguns brancos, alguns pretos). Um deles é removido aleatoriamente sem ser visto, e depois outros são sorteados da pilha restante.

Cada item aumenta a complexidade do sorteio.

Item a — Probabilidade de nenhum cartão preto ser pintado (4 pts)

O único cenário favorável (nenhum cartão preto sorteado) ocorre quando o cartão removido é o último — especificamente, se o cartão removido é o único preto restante.

  • Casos favoráveis: 1 (remoção do cartão na posição 11)
  • Casos totais: 11 (pode-se remover qualquer um dos 11 cartões)
  • Probabilidade = 1/11
CritérioPontos
Identificou o único caso favorável (cartão posição 11)2
Identificou o total de casos possíveis como 111
Calculou P = 1/111

Item b — Probabilidade de sortear um cartão preto (6 pts)

Aqui a solução usa probabilidade total — uma soma sobre todos os 11 cenários possíveis (remover o cartão K, para K = 1 a 11).

Para cada cenário K:

  • Probabilidade do cenário K: 1/11
  • Probabilidade condicional de sortear preto dado K: (11 − K) / 10 (se K for o K-ésimo cartão removido, restam 11 − K pretos nos 10 restantes)

A soma total:

$$P = \frac{1}{11} \cdot \sum_{K=1}^{11} \frac{11 - K}{10} = \frac{1}{110} \cdot (10 + 9 + 8 + \cdots + 0) = \frac{55}{110} = \frac{1}{2}$$

Probabilidade = 1/2.

CritérioPontos
Estruturou como soma sobre os 11 cenários1
Identificou probabilidade de cada cenário K como 1/111
Determinou P(sortear pretocenário K) = (11−K)/10
Calculou a soma (10+9+…+0 = 55) e encontrou P = 1/22

Item c — Probabilidade de sortear dois pretos seguidos (10 pts)

Agora soma-se dois sorteios consecutivos sem reposição, condicionado ao cenário K.

Para cada cenário K (K pretos ainda no baralho após remoção):

  • P(primeiro preto) = (11 − K) / 10
  • P(segundo preto | primeiro preto) = (10 − K) / 9

A soma total:

$$P = \frac{1}{11} \cdot \sum_{K=1}^{11} \frac{(11-K)(10-K)}{90}$$

Numerador: $\sum_{K=1}^{11} (11-K)(10-K) = 10 \cdot 9 + 9 \cdot 8 + \cdots + 1 \cdot 0 = 330$

$$P = \frac{330}{11 \cdot 90} = \frac{330}{990} = \frac{1}{3}$$

Probabilidade = 1/3.

CritérioPontos
Estruturou como soma sobre os 11 cenários2
Determinou P(1º preto E 2º pretocenário K) = (11−K)(10−K)/90
Avaliou a soma total (330) por soma direta ou fórmula2
Calculou P = 1/32

O padrão 1/11 → 1/2 → 1/3 é lindo e não é coincidência. Vale explorar por que esses resultados são tão limpos.


Questão 6 — O jogo de Rafael e Gabriel: divisores e lógica de conhecimento

Esta questão combina teoria dos números com raciocínio epistêmico (raciocínio sobre o que cada pessoa sabe ou não sabe). É o tipo de problema que exige leitura cuidadosa antes de qualquer cálculo.

O enunciado:

Rafael tem um número R e Gabriel tem um número G. Eles sabem que a operação entre seus números resulta em 60: ou R + G = 60, ou R × G = 60 (mas não sabem qual operação foi usada). Rafael diz que não sabe qual é o número de Gabriel. Gabriel também diz que não tinha informação suficiente. Ambos concordam que G = 30.

Item a — O que a fala de Rafael revela? (6 pts)

Rafael não sabe o número de Gabriel. O que isso implica sobre R?

  • Se R não fosse divisor de 60, então a operação Produto (R × G = 60) seria impossível (G = 60/R não seria inteiro). Nesse caso, Rafael saberia automaticamente que a operação é a Soma, logo G = 60 − R, e ele saberia o número de Gabriel.
  • Mas Rafael diz que não sabe. Portanto, R não pode descartar o Produto — logo, R é divisor de 60.
CritérioPontos
Identificou as duas operações possíveis (Soma ou Produto)2
Usou o argumento da contradição para R não ser divisor2
Concluiu que R é divisor de 602

Item b — A operação real é o Produto (6 pts)

Da incerteza de Rafael concluímos que R é divisor de 60 — ambas as operações são possíveis para ele.

Agora: Gabriel, sabendo G, também diz que não tinha informação suficiente. Se a operação fosse a Soma, Gabriel saberia R = 60 − G imediatamente. Mas Gabriel diz que não sabia — portanto, Gabriel também não podia descartar o Produto.

Isso significa que a operação real é o Produto: R × G = 60.

Adicionalmente, o item pede mostrar que G ≠ 15. Se G = 15, e Gabriel soubesse que a operação é o Produto, ele calcularia R = 60/15 = 4. Mas Gabriel disse não ter informação suficiente — contradição. Logo G ≠ 15.

CritérioPontos
Concluiu que a operação real é o Produto2
Assumiu G = 15 e chegou à contradição2
Concluiu G ≠ 152

Item c — O número de Gabriel é 30 (8 pts)

Para que Gabriel não soubesse a operação, ambas as operações devem ter sido possíveis para ele:

  • Produto: G deve ser divisor de 60 (para R = 60/G ser inteiro)
  • Soma: G deve satisfazer que R = 60 − G também seja divisor de 60 (senão a Soma tornaria R não-divisor, e Rafael saberia automaticamente — contradição com o item a)

Condição-chave: tanto G quanto (60 − G) devem ser divisores de 60.

Divisores de 60: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 10, 12, 15, 20, 30, 60.

Testando quais divisores de 60 têm (60 − G) também divisor de 60:

  • G = 1: 60 − 1 = 59 (não divide 60) ✗
  • G = 2: 60 − 2 = 58 ✗
  • G = 3: 57 ✗
  • G = 4: 56 ✗
  • G = 5: 55 ✗
  • G = 6: 54 ✗
  • G = 10: 50 ✗
  • G = 12: 48 ✗
  • G = 15: 45 ✗ (e já descartado pelo item b)
  • G = 20: 40 ✗
  • G = 30: 60 − 30 = 30 — 30 divide 60 ✓
  • G = 60: 60 − 60 = 0 (inválido)

G = 30 é o único valor que satisfaz todas as condições.

CritérioPontos
Concluiu que G é divisor de 602
Estabeleceu que (60 − G) também deve ser divisor de 603
Testou os divisores e identificou G = 302
Concluiu o número de Gabriel1

O que o Nível 3 de 2025 ensina

Quatro lições para quem vai prestar a OBMEP no futuro:

  1. Diferenças revelam divisores. Na Q1, MDC(y, z, w) se encontra pelas diferenças z − y e w − y. Essa técnica economiza muito tempo.

  2. O argumento de coloração transforma geometria em aritmética. Sempre que um problema envolver encaixe ou cobertura de tabuleiro, pergunte: o que acontece com as cores do xadrez?

  3. Probabilidade total é uma soma, não um caminho único. Na Q5, o segredo foi estruturar como uma soma de cenários mutuamente exclusivos (K = 1 a 11).

  4. Raciocínio epistêmico usa o que o outro não sabe. Na Q6, a chave foi entender que a incerteza de Rafael e Gabriel é informação, não ausência de informação.


Vídeos originais: canal Só o mi no YouTube. Questão 1: assista aqui. Questão 2: assista aqui. Questão 5: assista aqui. Questão 6: assista aqui.